sábado, 26 de outubro de 2019

Substância já amplamente usada pelas indústrias é ligada a danos cerebrais

26 de outubro de 2019
Na década de 1930, cientistas norte-americanos desenvolveram um produto barato e com diversas aplicações industriais: de tintas a adesivos, passando por lubrificantes, refrigeradores e retardadores de chama. Apesar da fórmula estável, resistente ao calor e isolante elétrica, as PCBs, sigla de bifenilas policloradas, se mostraram extremamente tóxicas, a ponto de serem banidas de diversos países muitos anos depois; inclusive, no Brasil. Proibir a fabricação de itens contendo PCBs não garantiu que o mundo tenha se livrado delas. Como os produtos feitos com esse material demoram décadas para degradar, as bifenilas policloradas continuam em circulação, e seus efeitos tóxicos ainda podem ser sentidos. Um deles foi verificado em um experimento com ratos, realizado no Centro Médico da Universidade de Georgetown. A exposição às PCBs provocou danos cerebrais e doenças neurodegenerativas nas cobaias. “A mesma estabilidade que tornou as PCBs tão úteis também as fez persistir no ambiente. Nossas descobertas em laboratório sugerem que esse acúmulo pode levar ao estresse oxidativo nos astrócitos (células do sistema nervoso central)”, afirma a principal pesquisadora, Mondona McCann. De acordo com ela, o estudo é o primeiro a testar os efeitos das PCBs em astrócitos. Essas células sustentam neurônios e são críticas para manter o equilíbrio do sistema nervoso central. Para McCann, a presença tóxica da substância no meio ambiente pode estar contribuindo para o desenvolvimento de distúrbios neurodegenerativos, como Parkinson e Alzheimer. Nos testes de laboratório, os pesquisadores notaram que as bifenilas policloradas danificaram os astrócitos que tentavam neutralizá-las. “Nossas descobertas, até o momento, mostram fortes conexões entre essas toxinas e a saúde dos astrócitos. Elas também contribuem para nossa compreensão de quão cruciais são essas células para manter o funcionamento do cérebro”, diz a pesquisadora. McCann explica que os astrócitos têm diversas funções: mantêm a barreira hematoencefálica, evitando que vírus e bactérias entrem no cérebro; dão suporte aos neurônios; regulam a comunicação entre eles; e reparam o tecido nervoso após lesões. “Se os astrócitos falham, os neurônios morrem. Eles são essenciais para manter a homeostase — a estabilidade fisiológica — em todo o cérebro”, diz. 

Estressores
Estudos anteriores mostraram que as PCBs podem causar câncer, suprimem o sistema imunológico, interrompem os sinais hormonais e prejudicam a reprodução. Elas também foram correlacionadas com a morte de células cerebrais nigrais (produtoras de dopamina) em pacientes com doença de Parkinson. McCann destaca que, provavelmente, um conjunto de estressores que incluem predisposição genética e presença de PCBs no ambiente estejam ligados à neurodegeneração. “Em determinadas regiões do planeta, as pessoas estão constantemente expostas a uma dose baixa de PCB e de outros compostos similares por um longo tempo da vida”, diz a pesquisadora. “É improvável que, alguma vez, consigamos remover do organismo o acúmulo dessa substância, mas, se em pesquisas com humanos conseguirmos descobrir as vias específicas afetadas no cérebro, talvez seja possível compensar clinicamente os deficits observados no funcionamento dos astrócitos. Com isso, poderemos empregar mecanismos compensatórios para aumentar a capacidade das células de combate a esses tóxicos e promover a sua sobrevivência”, completa. 

Risco de morte prematura
Um outro estudo divulgado recentemente associou níveis de PCBs na corrente sanguínea à morte prematura. Publicada no Jornal da Associação Médica Norte-Americana, a pesquisa foi realizada a partir de registros médicos e de óbito de 1 mil pessoas com mais de 70 anos, selecionadas aleatoriamente, de Uppsala, na Suécia, e realizada pelas universidades de Uppsala e de Orebo. No estudo, os participantes foram monitorados em longo prazo. As concentrações de PCBs no sangue foram medidas de 2001 a 2004 e, novamente, quando eles completavam 75 anos. O acompanhamento desse indivíduos por mais de uma década mostrou que aqueles com maiores níveis de PCBs no sangue tinham 50% mais risco de morrer, especialmente de doenças cardiovasculares. Os resultados foram independentes de fatores associados a esse tipo de enfermidade, como pressão alta, tabagismo, diabetes, obesidade e baixo nível educacional. Segundo Monica Lind, um dos autores da pesquisa, trabalhos associaram níveis elevados de PCB e incidência de aterosclerose em humanos. Ela alerta que é pela ingestão de alimentos que se contamina o organismo. “Nós, humanos, acumulamos a maior parte das PCBs no organismo os ingerindo com os alimentos. Essas substâncias são solúveis em gordura e encontradas principalmente na gordura animal, como peixe, carne e laticínios”, ensina.

Fonte: Correio Braziliense

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