sábado, 18 de maio de 2019

Enem: cota social é melhor que cota racial – e para todo mundo

17 de maio de 2019
Na guerra cultural (sim, isso existe) em andamento no Brasil (e no mundo), delírios à parte, chama atenção – na semana em que as ruas foram tomadas por multidões preocupadas com os destinos da educação – que ainda não tenha chegado à superfície da sociedade um debate que entupiu os esgotos da internet durante a campanha eleitoral: as cotas raciais. Mais cedo ou mais tarde, esse tema vai voltar com força, e seria inteligente e sensato nossos principais agentes políticos estarem prontos e armados para um enfrentamento de ideias e propostas que se dê acima dos subterrâneos em que proliferam preconceitos e desinformação. A esquerda gosta muito de se apoiar no conceito, imponderável e subjetivo, de que haveria um atávico “ódio aos pobres” servindo de combustível para as explosões que marcam os combates ideológicos sobre o papel do estado e as políticas públicas que diminuam as inquestionáveis desigualdades existentes no Brasil – sobre as quais não há divergências nem dos mais ensandecidos petraminions. Ignorar a força do emblema “ensinar a pescar” é uma tática não só inócua (basta constatar em que ponto chegamos) como desonesta. Alguém pode achar ruim capacitar uma pessoa a autodeterminar? Da mesma forma, alguém impediria que, independentemente disso, algo fosse feito para remediar uma situação desumana? Entre o ideal e a realidade, trava-se a tal guerra em que todos os soldados, de todas as tropas, se acham cobertos de razão e boa intenção. Desconheço alguém que, de forma consciente, lute por um mundo pior. Estamos falando em termos como os que envolvem outra concepção de justiça (e nunca de privilégios): a meritocracia. É curioso como o campo progressista enxovalha o conceito de mérito. Na verdade, mais que exótica, é uma posição burra. Não há regime político no mundo que valorize mais o esforço e o talento pessoais do que o “socialismo com traços chineses na época moderna”, usando as palavras do líder chinês Xi Jinping. Todos queremos ser reconhecidos por nosso valor. Ninguém gosta de ver seu legítimo lugar ocupado por alguém que não o fez por merecer. Mas por aqui a palavra meritocracia é tratada a pontapés por militantes talibãs, como se fosse algum sinônimo diabólico para exploração, injustiça ou maldade premeditada. Não é. Torturar o vernáculo não cria melhores condições para que um garoto negro e pobre receba alguma proteção na hora de disputar uma vaga com o menino branco e rico que sempre estudou nas melhores escolas. Aí chegamos na inversão mais perversa que fomos capazes de criar com nossos muros e bolhas: o “privilégio” de ser negro no Brasil. Por que virou privilégio? Porque, afinal, raça não é mérito, e nisso todos concordam. Quando defensores de cotas sociais ouvem um negro criticar com “ódio” esse mecanismo de inserção, o ouvinte, em vez de achar que está diante de um alucinado, deveria abrir mão da superioridade moral e tentar entender que masoquismo e loucura não são epidêmicos nem contagiosos. Alguma lógica, por mais perversa ou enviesada, está por trás desse posicionamento de aparência tão radical. É simples. Por que ser negro e pobre torna alguém “melhor” do que ser branco e pobre? Não somos todos iguais perante a lei? Nem todos aceitam o papel de vítima, por mais que tenham sido injustiçado. Dignidade, talvez. Por outro lado, nunca vi alguém contrário à política de cotas raciais se colocar contra a solução mais evidente e ecumênica: a cota social. Nem eu que sou a favor de cota racial consigo ser contra a opção pelo viés econômico. Por que esse debate nunca prosperou? Tenho minhas suposições – absolutamente inadequadas neste momento em que proponho objetividade. Só posso garantir que num país em que pobreza e negritude se confundem, seria improvável que o recorte por condições financeiras mudasse a lista de negros e pardos aprovados nos vestibulares deste país.
Foto: Pexels.com

Fonte: R7 Notícias

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