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quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Artigo: Breve reminiscência de um Delegado de Polícia

24 de Setembro de 2015
"Eu tive um sonho e o realizei. Era o ano 2007 quando com 33 anos, sequer tinha 07 (sete) anos de Polícia, cheguei em Juazeiro-BA para assumir o honroso cargo de Delegado Coordenador de Polícia, mas logo me disseram, é uma cidade violenta, de assassinos, uma cidade onde não há famílias, em resumo, havia a Juazeiro do Padre Cícero e a nossa, a Juazeiro do Shalako, uma então famosa casa de prostituição, que tinha emprestado seu nome de um filme de faroeste. A cidade onde outdoors em via pública ofertavam corpos de moças desnudas, onde se matavam por pouco ou por nada. Nada se tinha valor, exceto o povo, oprimido, que calado não tinha a quem recorrer, até então. Esta Juazeiro, naquele momento, faltava pouco para ser tão somente a cidade chamada Shalako, não precisava mais do nome de Juazeiro, tão mal cuidada, havia até chefes de matadores que diziam que por celular o Diabo lhe pedia uma alma por dia para receber no Inferno. Já em Salvador só me perguntavam: já foi no Shalako, e as mulheres são bonitas? Indignava-me. Para mim, Juazeiro era e é a terra que me impressionou na infância, a que vi pela primeira vez junto ao meu pai, ainda criança, em Alagoas, em um programa de TV produzindo algo que até então só tinha visto em Israel, terra de homens ganhadores de Prêmio Nobel: plantam e colhem uva no sertão. Coisa fantástica, ficou marcado isso na minha mente para sempre. Era essa a missão dada, administrar e gerir o que disseram que não tinha jeito, pois o que não tinha jeito solucionado estava. Assim achavam, eu não, nunca achei, eles estavam errados. Morte. Tráfico. Era o cotidiano. Até me aconselharam quando cheguei, aqui quem pode mora em Petrolina-PE. Recusei-me. Morei no Dom Tomaz, no Novo Encontro. Tinha que viver e sentir o que o povo sentia para perceber o pulsar da cidade e diagnosticar seus tormentos e anseios e melhor respondê-los. Sonhei. Boa vontade contamina, escolhi então uma pequena equipe de valorosos 06 (seis) homens como linha de frente e este sonho mostrou-se concretizado. Parecia que estávamos em todos os lugares. Pronto, simples, Juazeiro não é terra de assassinos, também, nem foi, nem será terra de moças sem família. Amor e pulso forte, a ordem. As famílias tiverem paz. Apenas com que já se tinha, nada mais, mas sabe, também não precisava, o que aqui já tinha bastava, como o que hoje ainda tem, homens e mulheres de bem, então a população dando apoio moral a uma boa e pequena equipe, que trabalhava dia e noite, feriado e santificados, sem diárias e sem aplausos nem afagos de superiores, sacrificando seus momentos com suas famílias, mas que com garra sonharam juntos comigo e transformaram-se também em sonhadores e o resultado: PAZ REINANDO NO MUNICÍPIO DE JUAZEIRO. A lei permitiu que fosse preso quem foi preciso, quem era rico, quem era pobre, quem era necessário. A força do crime reconheceu a força do Estado e recuou. O Povo foi à Delegacia e eu fui ao Povo. Onde e aonde houvesse o crime a Polícia Civil ia atrás, os bravos guerreiros, com a certeza da minha liderança, com a certeza que nos momentos mais difíceis eles teriam eu, CHARLES LEÃO, à frente dos obstáculos, ciente que o trabalho desenvolvido era de todo Grupo, que o criminoso poderia ter qualquer qualidade, até financeira, eles poderiam agir, eu estaria ao lado deles e eles confiavam em mim. A regra de ouro para que o sonho ocorresse na prática. O meu não apego ao cargo, desde o primeiro dia resolvi que todas as decisões seriam tomadas para atender ao povo, como se fosse meu último dia no cargo, justamente aí justifico minha permanência por anos com a linha que segui. Foram quase 04 (quatro) anos como gestor público de segurança em que todos os dias ofertei minha vida em prol da população de Juazeiro e não estou falando por metáforas, dizia sempre e tinha plena consciência da veracidade, quem mora perto do cemitério não pode ter medo da morte, mas certo que Deus não quis, não era o tempo, sei que Ele me reserva muitas missões ainda neste plano terrestre. De outras cidades onde passei deixei também bons legados, posso buscá-los, mas agora não é o momento, mas em Juazeiro coincide minha passagem com o período inédito na historia recente da cidade em que se passou mais de 40 dias sem um único homicídio, onde centenas e centenas de traficantes foram presos pela Polícia Civil. Também é verdade, cortei na carne, prendi policiais civis e militares, era mais que necessário. Grupos de Extermínio, também os combati, o atual pequeno traficante ora morto era o usuário filho ou parente de um de nós que por infelicidade tornou-se um devedor do tráfico ou um assaltante para sustentar seu vício, e estes Grupos são mercenários, pistoleiros, sem controle, e que futuramente podem ter como alvo eu, você, qualquer um, desde que se pague o quanto querem, merecem atenção. Pois então, desta experiência como Gestor Público em Juazeiro, da área segmentada de Segurança Pública, vi um todo, pois peguei o homem no final do sistema, vi as falhas das políticas públicas, onde ela falhou e abandonou o povo. Em Juazeiro, resolvi na minha área, portanto eu conheço o homem quando do erro, mas eu conheço o que falhou, quem falhou, como falhou, de que forma falhou, fui onde a maioria não foi, vi a pobreza extrema e crueldade do abandono do Estado, basta dizer: quem já entrou no lixão na estrada do Salitre? Então, este homem da Segurança Pública, que faz parte dela com êxito há 14 anos, de um todo que forma a gestão pública, recebeu o homem enquanto falhou todas as demais gestões públicas na rede de proteção da sociedade. Quando o Estado e suas políticas falham e a criminalidade tomam conta da cidade terminam as coisas sendo resolvidas na Delegacia, portanto, nada mais importante então que um gestor conheça o que leva este homem as barras da Polícia e que trabalhasse onde o povo se encontra desassistido para que agindo preventivamente não fosse a prisão a única face visível do Estado. Um grande homem afirmou que a experiência é o nome que damos aos nossos erros” (Oscar Wilde). Nada mais certo, falta a este Delegado de Polícia certo tipo de experiência, porém o que mais tive que lidar foi com os erros de outros gestores. Assim, falei certa vez, encerrei um ciclo em Juazeiro como Delegado de Polícia, mostrando que sonhos são realizados, basta apenas boa vontade, desapego, coragem, vontade de fazer e gostar de pessoas, basta ter estas qualidades que todos os problemas de Juazeiro serão simples de se resolver. Por fim, como cidadão de Juazeiro, deixo uma mensagem, ouçam o povo, ele anseia ser ouvido."
Charles Leão - Delegado da Polícia Civil do Estado da Bahia

Fonte: Blog Diniz K-9

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